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O último Cordel de Moraes Moreira

Na madrugada do dia 13/04 faleceu o cantor e compositor Moraes Moreira. Já em confinamento devido à quarentena, ele escreveu seu último cordel, falando exatamente sobre o que estava passando no momento.
Foto Divulgação

Na madrugada desta segunda-feira, 13/04/2020, o cantor e compositor Moraes Moreira faleceu na cidade do Rio de Janeiro. A causa da morte ainda não foi divulgada.

A gente não sabe direito o que ocorreu. Nem eu, nem as irmãs sabemos”, disse Eduardo Moraes, irmão do cantor.

Moraes Moreira nasceu no interior da Bahia, na cidade de Ituaçu em 1947. Começou na música logo cedo, tocando sanfona nas festas de São João.

Mas foi quando mudou para Salvador, aos 19 anos, que conheceu os amigos Luiz Galvão e Paulinho Boca de Cantor, que futuramente formariam o conjunto Novos Baianos, que também contou com Baby do Brasil, Pepeu Gomes, Dadi Carvalho e vários outros.

Foto Divulgação do Grupo Novos Baianos

Nos últimos anos, Moraes Moreira focou bastante na arte de cordel, e vinha fazendo diversas apresentações com canções que ele mesmo compunha nesse estilo. Também lançou o disco “Ser Tão”, em 2018.

No mês passado (março/2020), já confinado em casa por causa da quarentena, Moraes Moreira compôs seu último cordel de conhecimento público na madrugada do dia 17 de março. No dia seguinte, 18, ele publicou o cordel na íntegra em sua rede social.

Veja o Cordel abaixo:

Quarentena (Moraes Moreira)

Eu temo o coronavírus
E zelo por minha vida
Mas tenho medo de tiros
Também de bala perdida,
A nossa fé é vacina
O professor que me ensina
Será minha própria lida.

Assombra-me a pandemia
Que agora domina o mundo
Mas tenho uma garantia
Não sou nenhum vagabundo,
Porque todo cidadão
Merece mais atenção
O sentimento é profundo.

Eu não queria essa praga
Que não é mais do Egito
Não quero que ela traga
O mal que sempre eu evito,
Os males não são eternos
Pois os recursos modernos
Estão aí, acredito.

De quem será esse lucro
Ou mesmo a teoria?
Detesto falar de estrupo
Eu gosto é de poesia,
Mas creio na consciência
E digo não a todo dia.

Eu tenho medo do excesso
Que seja em qualquer sentido
Mas também do retrocesso
Que por aí escondido,
Às vezes é o que notamos
Passar o que já passamos
Jamais será esquecido.

Até aceito a polícia
Mas quando muda de letra
E se transforma em milícia
Odeio essa mutreta,
Pra combater o que alarma
Só tenho mesmo uma arma
Que é a minha caneta.

Com tanta coisa inda cismo….
Estão na ordem do dia
Eu digo não ao machismo
Também a misoginia,
Tem outros que eu não aceito
É o tal do preconceito
E as sombras da hipocrisia.

As coisas já forem postas
Mas prevalecem os relés
Queremos sim ter respostas
Sobre as nossas Marielles,
Em meio a um mundo efêmero
Não é só questão de gênero
Nem de homens ou mulheres.

O que vale é o ser humano
E sua dignidade
Vivemos num mundo insano
Queremos mais liberdade,
Pra que tudo isso mude
Certeza, ninguém se ilude
Não tem tempo, nem idade.

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Ouça o último disco de Moraes Moreira:

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