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Resenha | Válvulas Imaginárias: Ensejo

Jovens tristes dentro do quarto não são apenas jovens tristes. São reflexos de todo o mundo em que vivemos hoje. E em todo o mundo, e até além, “Ensejo” se coloca no espaço-tempo em que nós paramos para apenas ouvir uma música, mas acabamos inteiramente arrebatados psicologicamente pela delicadeza e complexidade de tudo que ele se tornou.
Foto divulgação por Marco Rodrigues

Ensejo” é o nome do primeiro disco do Válvulas Imaginárias, projeto solo do músico Fernando Lodi.

A primeira vez que ouvi esse disco era noite, noite como o breu tomando conta de tudo, como se não houvesse mais obstáculos, afinal, não se enxergava nada. Então também fechei os olhos para o que me aguardava, e decidi apenas sentir.

Quando não se sabe o que está por vir, as possiblidades e as surpresas podem ser extremamente arrasadoras, e esse disco me arrasou.

Confesso que lágrimas escorreram.

Ao se colocar num lugar vulnerável, pronto para sentir, é onde mais se sente.

Como o caminho percorrido pela noite adentrando em diferentes coordenadas do planeta terra, a sonoridade do disco move-se pelos ouvidos e vai direto em nossas emoções.

Músicas instrumentais nos deixam libertos para fazer delas tudo o que desejamos, e cada canção, faixa a faixa, eu pude refletir da forma que eu queria, pois tudo parece tão simples, mas é tão além disso tudo que vivemos nesses últimos tempos.

Ensejo” soa como a liberdade que a imensidão do universo nos dá. A chance de explorarmos cada canto, cada mísero pedacinho, cada átomo encontrado foi o que sempre deu esperança à humanidade.

Claro que em proporções diferentes, o trabalho de construção do disco “Ensejo” do Válvulas Imaginárias também explora aspectos sonoros de diversos lugares.

Você segue por caminhos já percorridos pelo post-rock, e ainda mais pelo math rock, porém não é a mesma coisa. É como se flutuasse pelo timbre post-rock meio psicodélico de Sigmun (banda de Bandung, Indonésia) e, no ar, se entrelaçasse com a classe e suavidade das melodias de Boraj (banda de Santiago, Chile).

Foto divulgação por Fernando Lodi

Tudo começa sereno, calmo, límpido. Como quando a cigarra para de cantar no telhado no meio da madrugada e você sente aquele silêncio acalentador e aquilo se transforma na coisa mais prazerosa de toda a sua vida. Você é tomado ao completo.

E completos são os acordes de “Ensejo”, as harmonias tão bem compostas, o ritmo perfeito para o transe espiritual que nos coloca onde queremos estar, seja na manhã fria com o céu totalmente azul com a xícara de café ou naquele dia de trânsito infernal que a gente se pega parado, sem saída, apenas pensando em tudo o que deu errado em nossa vida para estarmos ali, naquele momento.

Extremamente recompensado pela sonoridade que me levou. Bendito o dia que coloquei os fones e dei o play. Confesso que foi extremamente difícil escrever tudo isso aqui sobre este disco, me faltaram muitas palavras.

O Disco

Ensejo” foi elaborado aos poucos, dia a dia, mês a mês. Totalmente independente, o disco foi completamente feito pelo próprio Fernando Lodi: composição das melodias e letras, gravação de todos os instrumentos, mixagem, masterização e capa.

“Ano passado eu comecei a estudar como gravar, fui fazendo testes com algumas ideias que eu tinha na gaveta, que inclusive viraram músicas do disco e que mudaram bastante ao longo da gravação. Mas só esse ano as coisas começaram a pegar forma, e como eu fui aprendendo a gravar ao longo do processo, acabei demorando um pouco”, conta Fernando Lodi.

Capa do disco Ensejo por Fernando Lodi

Cada uma das nove canções foi intitulada com um horário, esse horário é do exato momento em que o Válvulas Imaginárias fechou o arquivo de cada uma delas pela primeira vez, e quase todas foram finalizas em meio à madrugada.

Tudo feito dentro do quarto, bom, em partes sim. Percebemos em várias faixas barulhos gravados dentro de casa: o caminhar, o som do micro-ondas, o abrir da geladeira, o sentar na cadeira.

Fernando Lodi também é guitarrista e vocalista na banda Infante, porém foi a primeira vez que ele tomou a frente de um projeto como produtor de um disco, e garanto que ficou um trabalho incrível.

Jovens tristes dentro do quarto não são apenas jovens tristes. São reflexos de todo o mundo em que vivemos hoje. E em todo o mundo, e até além, “Ensejo” se coloca no espaço-tempo em que nós paramos para apenas ouvir uma música, mas acabamos inteiramente arrebatados psicologicamente pela delicadeza e complexidade de tudo que ele se tornou.

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