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Resenha – Álbum | Fabio Santanna: Vibração

Uma viagem sideral percorrendo por astros que brilharam tanto nas noites cariocas. “Vibração” é uma ode a tudo que veio antes, mas também se coloca de forma etérea para se tornar mais um marco da sonoridade preta brasileira.
Foto divulgação por Gustavo Schlittler

Vibração” é o nome do terceiro disco de Live Motel, projeto do cantor, compositor e produtor carioca Fabio Santanna.

Dançar.

Vibração” te convida a dançar. Se mexer, rebolar, balançar, bailar, agitar-se, saltitar. Pode chamar como quiser, só não pode ficar fora dessa festa.

Live Motel nos leva para o mundo da disco, da soul music, dos anos 80, dos embalos do sábado a noite. Mas muito além disso tudo, o novo álbum de Fabio Santanna nos coloca dentro dos bailes blacks do Rio de Janeiro, tanto das décadas passadas quanto os que se perpetuaram e mantiveram a cultura preta em destaque com muita luta e sem perder o gingado.

Até me falta palavras para descrever este disco. Consigo dizer que estou completamente envolvido por toda essa sonoridade construída sob os firmes pilares da música preta brasileira e universal. O álbum é Fabio Santanna pegando um pouquinho de cada referência que construiu sua veia musical e usando isso não apenas para fazer seu novo trabalho, mas para homenagear seu ídolos sob a marca do brazilian boogie, funk, soul, disco e house.

Vibração é um disco que me fez mergulhar na minha essência, na minha história e nos meus anseios como artista. Produzir, existir nesse período é necessário, mostrar que é vibrando na arte que somos resistência e emanamos luz. Sou um artista negro independente, compus, executei, arranjei e produzi, abracei todas as minhas limitações e botei o bloco na rua. Vibração é baile, energia, afinal não somos só tristeza e problemas, somos, também, beleza, exuberância, prazer e alegria”, conta Fabio.

Para mim, “Vibração” é como uma excelente playlist com o melhor das músicas dos bailes que nós jovens tantos ouvimos falar e que quase nunca tivemos a oportunidade de ver. Imagine Fabio Santanna fazendo esse disco ao vivo no Baile Charme no Rio de Janeiro, se isso acontecer preciso estar presente nesse momento.

Vibração” traz a pegada de Gerson King Combo, o ritmo de Di Melo, a molecagem de Wilson Simonal, o romantismo de Carlos Dafé, o soul com cara de Brasil de Dom Salvador, os arranjos incríveis como de Cassiano, o jazz tropical de Erlon Chaves e o jazz mais clássico de Ed Motta, sem contar uma pitada da aura samba-rock de Clube do Balanço e todo o swing da Banda Black Rio.

Assista ao clipe da canção As Flores Vão Chegar

Agora temos um caldeirão de influências onde tudo se mistura, e disso sai o melhor resultado possível, ainda com uma pitada moderna de beats e sintetizadores que carimbam: este trabalho com certeza foi produzido por Fabio Santanna.

Se por acaso você precisa de uma referência mais moderna para te motivar a dar play, é bem fácil de encontrar: se gostou de Boogie Naipe de Mano Brown com certeza irá amar “Vibração“.

O Disco

Capa do disco Vibração de Live Motel, projeto de Fabio Santanna.

Concebido no Na Nave Estúdio, durante o período de quarentena, “Vibração” mostra a versatilidade do músico Fabio Santanna, que compôs, arranjou e produziu todo o disco. A mixagem, masterização e co-produção ficaram por conta de Pedro Poyart. O trabalho ainda conta com as participações especiais de Pérola Kenia em “Febre de Amor” e Pinaud em “Vontade de Dançar”, além de produção executiva por Luisa Moura.

Uma viagem sideral percorrendo por astros que brilharam tanto nas noites cariocas. “Vibração” é uma ode a tudo que veio antes, mas também se coloca de forma etérea para se tornar mais um marco da sonoridade preta brasileira.

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Ouça o Disco:

Faixa a Faixa

No Calor do Amor abre o disco com uma frequência leve e solar: “minha intenção foi trazer aquela sensação da espuma fina do mar que molha os pés antes de dar o primeiro mergulho”, comenta. Quase um instrumental, synths e vocais criam uma atmosfera etérea, mas mantendo a pulsação: o verão está chegando no calor do amor. “A harmonia tem inspiração nas canções da minha eterna musa Rita Lee”, revela.

Segundo single a ser lançado, Bem de Leve é “aquela brisa morna e gostosa de verão que toca o rosto”. A música é uma homenagem de Fabio à sua parceira de vida e fala da beleza do encontro e da leveza do amor e vem embalada no que ele nomeia como “um synthpop gostoso inspirado em Rita Lee, Marina Lima e Lulu Santos”. 

Assista ao clipe da canção Bem de Leve

Faixa que dá título ao disco, Vibração é “a chegada do sol, a pulsação, a energia que faz vibrar e que sintetiza toda a minha ideia para o disco. Marcos Valle, Lincoln Olivetti, Pepeu Gomes, segui os meus mestres com muita vontade para tentar criar essa narrativa solar e carioca numa pegada Brazilian Boogie. Synths, guitarras e vocais a serviço do groove”, conta. E a canção chega como o destaque do álbum com videoclipe inédito (assista aqui), dirigido por Fabio, que traz a participação de Jonathan Neguebites, um jovem negro da periferia da capital carioca, que faz parte do coletivo funkeiro Heavy Baile e também do grupo Os Imperadores da Dança, além de ser professor de dança especialista no “passinho”. “Jonathan foi mais que perfeito, alto astral, cheio de malemolência e swing dos bailes cariocas, o cara arrasou, se jogou bonito, dançou, quebrou, vibrou: era tudo o que tinha na minha mente e muito mais! Mesclamos a minha imagem na dele, por vezes sendo uma só persona, por outras, enquanto cantava, Jonathan encarnava uma espécie de espírito surreal da dança, do movimento, captando a energia que vem da música. Abusamos de efeitos, das cores e de movimentos, trazendo uma estética afro futurista e urbana ao mesmo tempo”, conta.

A quarta faixa, Ipanema, é o que Fabio chama de “pré baile”: “uma homenagem aos meus tempos de rolê nos bailes, mas antes rolava aquela praia pra alinhar. Um groove gostoso e que me leva de volta àquele cenário de Ipanema nos anos 80, onde me perdia entre a zona sul e o subúrbio carioca, a trilha era Cassiano, Banda Black Rio, Tim Maia, Hyldon e Bebeto”, lembra.

As Flores Vão Chegar foi o primeiro single lançado, que abriu os caminhos para o álbum. “A black music brazuca foi trilha sonora da minha vida e seguramente arquitetou toda a minha base artística. Canções como Primavera (Tim Maia) nunca saíram da minha cabeça, aquela soul music cantada em português”. A canção foi lançada junto com o início da primavera: “queria cantar sobre a esperança que estava presa no peito, feita bem no início da pandemia, onde dizia a mim mesmo ‘sobre tudo o amor há de vencer’”. 

A sexta música do álbum é Fixação e traz a atmosfera dos bailes: “aquele groove pra fazer dançar, bass synth e beats num balanço gostoso. Fixação canta sobre o amor que mexe com a gente e é pura curtição”.

Na sequência vem Febre de amor, que foi o último single antes do lançamento do disco: “com essa faixa eu marco o território da negritude do disco, como um carimbo mesmo, já que esse disco é feito por uma artista negro oriundo dos bailes cariocas. Tem aquela pegada soul veneno dos bailes, bpm mais lento, mas pulsante e cheio de malícia”. A canção conta ainda com a participação pra lá de especial de Pérola Kenia, cantora negra da periferia do Rio, também compositora e MC. 

Assista ao clipe da canção Bem de Leve

Se sua Estrela não Brilha vem como um recado bem direto: “é uma provocação para aquela galera que fica na surdina, torcendo contra. Nada melhor do que um groove afro e cheio de mandinga pra espantar essa vibe”. “Se sua estrela não brilha não venha a minha apagar”, canta Fabio com um certo humor e sarcasmo, mandando o papo reto: “se não torce não atrapalha”. Mas no final todo mundo acaba dançando junto, “vencemos na categoria e no balanço”, comenta. 

Balanço Zona Sul é uma homenagem à vida de Fabio pelos bailes que foram a sua maior escola: “foi onde que entendi a pulsação, o corpo em movimento, o que mexia com as pessoas e comigo. Hoje sou músico e produtor, mas tudo começou nos primeiros passinhos dos bailes. Quer entender groove? Vá num baile black”. 

Barbarela Negra é uma faixa que exalta oafrofuturismo: “queria cantar e exaltar a beleza negra, inspirado em Jorge Ben Jor, e fiz um paralelo do filme Barbarella com Jane Fonda com o universo black do afrofuturismo, com o cosmos e com a beleza da mulher negra. Na minha música, Barbarela é uma negra linda, cósmica, cheia de atitude e força. Ainda deu pra fazer uma menção a Black is Beautiful, do Marcos Valle”. 

Luz Neon é o que Fabio chama de Black Brazilian Boogie: “as influências vêm da pista de dança, da minha experiência como DJ e músico – tudo se mistura para criar esse groove synthfunk e, novamente, seguindo os mandamentos blacks dos meus mestres Lincoln Olivetti, Cassiano, Marcos Valle”. 

Referência é tudo no processo de criação de Fabio, seja na busca de uma estética ou de uma sonoridade. E isso pode ser conferido em Corpos Ardentes (na linha do equador) faixa na qual ele resgata os sons da Gang 90, “era uma banda que tinha vários hits que nunca saíram da minha cabeça, como Nosso Louco Amor, Perdidos na Selva, Pelo Telefone, e que trazia um som moderno com uma narrativa quente dos trópicos, uma linguagem que sempre me atraiu, Julio Barroso jornalista e líder da banda era um mestre nisso”, recorda. E outra referência marcante nessa canção é Guilherme Arantes, seus discos tocaram muito na vitrola de Fabio.

Foto divulgação de Live Motel, projeto de Fabio Santanna. Foto por Gustavo Schlittler

Prestes a fechar o disco vem Xangô, faixa na qual predominaa negritude e as batidas com grooves afros, que transitam por todo o álbum. “Criei um beat afrofunk, pulsando no bass e cantando nos tambores. Falo de ancestralidade, religião de matriz negra, e canto em homenagem à Xangô. Lembro com saudade dos pontos e cânticos que ouvia bastante nas idas ao terreiro da minha avó. Xangô é o orixá da justiça e 2020 é regido por ele, nada mais atual que cantar o nosso anseio por justiça nesse momento. Xangô abre o caminho com seu machado! Kâo Kabicilê!”, vibra Fabio.

Vontade de Dançar foi o primeiro single do disco lançado logo no início da pandemia e fecha Vibração. “A dança para mim sempre transcendeu o físico, também é espiritual. E a criação desse groove funcionou como uma maneira para poder aliviar o isolamento físico, a distância das pessoas, o medo. Vontade de dançar me ajudou a lidar com tudo isso”. Na faixa tem a participação do DJ e produtor João Pinaud, que gravou um baixo pulsante e hipnótico, “é pista para exorcizar geral”.

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