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A visceralidade do cotidiano em OlhovivO, novo disco do músico André Paz

O disco nos coloca de cara com a nossa própria vida, mesmo quando queremos fugir dela. A tristeza, o término, a amizade, a vida atropelada, o que deixamos esfriar. Todas questões que permeiam o nosso antro e as belas letras de “OlhovivO”.
Foto divulgação por Thais Fernandes e Vinícius Goulart

OlhovivO” é o nome do segundo álbum cantor e compositor gaúcho André Paz.

Olho. Que tudo vê. Que tudo absorve. Que tudo sente. Que tudo contempla.

Vivo. Estamos, mas não estamos. Manter-se assim, nesse mundo decrepito, não é como uma poesia. Ou talvez seja, se esse poema for “Retrato” de Cecília Meireles.

E assim “Tudo é Melhor Quando se Abre” se apresenta como a primeira canção do disco, funcionando como a alegoria da vida suburbana deste século, o flagelo de ser brasileiro. O trecho “com qual a voz que se diz, aquilo que se tem pra esconder, o peito abre e a goela seca…” poderia muito bem estar no poema de Cecília, assim como “eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra”, de Cecília, poderia fazer parte da canção de André Paz.

Na maioria das músicas que ouço a primeira coisa que me pega a atenção é o instrumental, pois é ele que me faz sentir sensações de forma mais diligente e contemplar e acalentar a ansiedade que estou sentindo. Mas em “OlhovivO” não foi bem assim. Em primeiro lugar me rendi à composição, ao poema, ao cântico. Através desta obra, André Paz mostrou-se ser um exímio letrista, quanta profundidade em cada uma das canções. André, eu te venero!

É uma beleza sem tamanho em retratar o cotidiano de uma forma tão clara e simples, mas também enigmática. E além do que vivemos tem também questões dos nossos anseios, desejos, sofrimentos. Um ar em grande tom de melancolia, algumas vezes, acomete nossos ouvidos, mas as sonoridades muito bem colocadas nos fazem sofrer um pouco menos com as mensagens das canções.

Veja o clipe da canção Açúcar

O que me deixou mais surpreso foi que só depois de escrever tudo isso eu li o material de imprensa sobre o disco (sim, esse parágrafo foi adicionado posteriormente) e lá estava as seguintes palavras de André Paz sobre “OlhovivO”:

André pensou em um processo diferente de composição, a fim de criar um “ambiente onde as pessoas pudessem ficar à vontade para dialogar com as canções”. As músicas foram compostas “tendo em mente a criação de letras e de melodias, não dando lugar ao lado instrumentista, produtor… queria que essa etapa entrasse num segundo momento”.

No meu entendimento sobre o disco “OlhovivO” só posso dizer que o objetivo foi alcançado. Me senti 100% conectado com as letras e melodias e depois com as canções como um todo. Este não é daqueles álbuns que talvez você irá ouvir e amar de primeira (apesar disso ter acontecido comigo), ele demanda digestão, afinal só assim é possível absorver tudo o que ele traz de melhor.

O Disco

Capa do disco por Fernanda Puricelli

A habilidade de André Paz para a composição não vem deste disco, já vem de muito tempo. Ele trabalhou desde 2014 em seu primeiro álbum, “Cerca”, lançado em 2018 através de um financiamento coletivo. A partir deste disco, André Paz foi indicado ao Prêmio Açorianos de Música na categoria de Melhor Compositor Pop. Entre as influências musicais para o novo trabalho estão Maurício Pereira, Jorge Drexler, Alzira E, Xênia França, Lívia Nery e FKJ.

André Paz formou um trio com os produtores Duda Raupp e Fu_k The Zeitgeist para produzir este disco, e ainda teve as participações de Lorenzo Flach, Filipe Narcizo e Maca Sol. “OlhovivO” foi gravado entre fevereiro e novembro de 2020 em Porto Alegre em seus respectivos home studios e masterizado por Thiago Grün e Fu_k The Zeitgeist.

Lembrando que no perfil do André Paz no Instagram tem uma série de vídeos com uma breve explicação faixa-a-faixa da canções do disco, vale muito a pena conferir.

O disco nos coloca de cara com a nossa própria vida, mesmo quando queremos fugir dela. A tristeza, o término, a amizade, a vida atropelada, o que deixamos esfriar. Todas questões que permeiam o nosso antro e as belas letras de “OlhovivO”.

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