Lançamentos resenha

A paz emancipadora da natureza em O Abre Caminhos, debut da Fogo Pagô

Fogo Pagô fez de “O Abre Caminhos” uma porta para nos conectarmos com a natureza como se fosse um transe, uma meditação. Impossível não se libertar e deixa-se sentir o que as sonoridades da nossa terra tem a nos mostrar.
Foto Divulgação por Victória Nasck

O Abre Caminhos” é o nome do disco de estreia da dupla baiana Fogo Pagô, formado por Leticia Peixinho e Maiara do Carmo (Carmiru).

Eu poderia vir aqui escrever e apenas falar sobre esse disco. Porém farei um pouco diferente, vou ir além e dizer tudo o que ocorreu até eu chegar nesse disco, até parar para realmente ouvi-lo.

12 de Maio.

Encontro em minha caixa de entrada um e-mail cujo título é “Lançamento de Disco e Clipe // Fogo Pagô“. Abro. Logo no primeiro parágrafo o seguinte: “Oi minha gente, boa tarde, tudo bem?  Somos a dupla Fogo Pagô, de Feira de Santana, Bahia. Lançamos nosso primeiro disco no dia 02 de abril e o clipe de ”Curupira”, uma das faixas desse trabalho, hoje (12/05)“.

Como não era um lançamento de disco desta semana eu deixei em standy by e não li o restante, marquei como não lido para não perder o e-mail.

No mesmo dia, antes de ir dormir, eu estava um pouco ansioso pois no dia seguinte teria um compromisso presencial, e claro que estava com receio, afinal existe um vírus grave em circulação e o medo é constante. Em quê condições estaria o local onde eu deveria ir? Isso me fez dormir extremamente mal, sonhos ruins e acordava toda hora, foi uma péssima noite.

13 de Maio.

Como você já deve ter deduzido, quando acordei estava completamente destruído fisicamente, o que uma noite ruim pode fazer com a gente, não é mesmo? Mais tarde sentei ao computador para verificar os e-mails e novamente dei de cara com “Lançamento de Disco e Clipe // Fogo Pagô“. Novamente ignorei, pensando eu deixar para outro dia.

Antes de sair de casa decidi sincronizar o disco em meu Spotify para ouvir no caminho enquanto dirigia. Mas eu estava nervoso e ansioso, então optei por colocar outras músicas para ficar mais relaxado.

Ao final do compromisso – que ainda bem foi num local arejado, janelas grandes abertas, distanciamento e afins – voltei para casa mais relaxado.

A noite, após o jantar, novamente voltei aos e-mails. Olhei alguns, fiz minhas anotações. Então finalmente decidi abrir o enviado pela Fogo Pagô. Como sempre, fui direto procurar o link para ouvir a música antes de ler o e-mail. Dei play. Foi então que algo em mim aconteceu.

Assista ao clipe de Curupira

A Abertura (ou O Abre Caminhos)“, que inaugura o disco, tem introdução com sons de água e posteriormente a recitação de uma poesia. Ali eu senti uma sensação boa, menos de dois minutos de canção foram completamente diferentes de todo o resto do meu dia.

Quando a canção “Mães Terra”, segunda do disco, começou, novamente uma sensação expendida me acometeu. Ouvi a faixa até a metade e tomei uma decisão. Eu simplesmente abandonei tudo o que estava fazendo, desliguei o computador, troquei os fones de ouvido por um maior e melhor, deitei na cama, apaguei as luzes e dei play no disco desde o início novamente. Foi a melhor decisão que tomei no meu dia. A partir daí começou minha experiência com “O Abre Caminhos”.

Foi surreal.

De forma abrupta as sonoridades do disco tomaram conta de mim e me levam embora a ansiedade, estresse, nervosismo, medo. Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo comigo, lembro claramente de passar os 38 minutos do disco sorrindo, isso mesmo, sorrindo pro nada, sorrindo sozinho no quarto escuro.

Foi uma felicidade imensa que tomou conta de mim ao ponto de algumas vezes os olhos ficarem carregados de lágrimas de emoção. É tão lindo, gostoso e libertador sentir isso ouvindo músicas, é uma das plenitudes mais prazerosas que se pode ter. 

Eu sei que você pode ouvir o disco e não sentir nada ou até mesmo odiar, afinal cada um entende as coisas de um jeito. Mas a forma que foi pra mim foi especial. O que esse disco me causou eu nunca vou esquecer.

O Disco

Capa do disco por Maiara do Carmo

As sonoridades são ricas, cada elemento presente nas canções tem seu próprio poder, sua força de fazer a diferença dentro da música, e isso ocorre em todas as onze faixas de “O Abre Caminhos”.

Como sempre digo, as percussões são os instrumentos que conseguem melhor transmitir a nossa conexão com a terra, com a natureza. Neste disco do duo Fogo Pagô foram ponto de partida e elementos centrais de toda a obra, justamente o que fez total diferença. A todo momento me senti completamente vinculado à nossa natura.

A ideia é que o disco conte como corpo e terra se tornam um só dentro da música, como a gente se cura e protege quando a natureza está perto e como os bichos são nossa guiança. Isso vai acontecendo no caminho do disco, que passeia pelos cinco elementos (água, fogo, terra, ar e éter) em cada música, se misturando em algumas delas’’, conta a dupla. 

Para chegar nesse resultado, durante todo o processo de gravação, os artistas estiveram numa roça na cidade de Capim Grosso (Bahia), vivendo a imersão e preparação para o lançamento.

Foto Divulgação por Victória Nasck

Uma coisa que eu sempre digo é que aquela sensação incrível de ouvir um disco pela primeira vez nunca mais se repete. Mas pela primeira vez se repetiu. Todos as sete vezes que ouvi esse disco até publicar essa matéria eu senti a mesma sensação, abri o mesmo sorriso, recebi a mesma paz e espero continuar sentindo tudo isso para todo o sempre.

Fogo Pagô fez de “O Abre Caminhos” uma porta para nos conectarmos com a natureza como se fosse um transe, uma meditação. Impossível não se libertar e deixa-se sentir o que as sonoridades da nossa terra tem a nos mostrar.

“A música é celeste, de natureza divina e de tal beleza que encanta a alma e a eleva acima da sua condição” (Aristóteles).

O disco “O Abre Caminhos” foi viabilizado através do edital de cultura via Lei Aldir Blanc da cidade de Feira de Santana.

Ficha técnica do disco:
Leticia Peixinho: Vozes e violão
Maiara do Carmo: Vozes, violão, controlador
Ludmilla Dourado: Voz (faixas “Banho de Cachoeira” e “Música do Rio”)
Daniel Penha da Quixabeira: Violão, cavaquinho, voz
Bel da Bonita: Percussão e efeitos
Kelvin Diniz: Sanfona, alfaia, caixa, percussão, triângulo, controlador
Igor Liô: Violão (faixa “A Mensageira”), pífano e efeitos de sopro (faixa “Curupira”)
Manoel Dionísio: Baixo
Alvin Soares: Baixo (faixa “Pavoinha na Pele do Imaginário”)
Fatel: Voz (faixa “Pavoinha na Pele do Imaginário”), guitarra (faixa “Curupira”)
Rafael Mendes: Sanfona, efeitos de sopro e percussão, e voz (faixa “A Mensageira”)
Produção Musical: Uma produção coletiva da dupla com Daniel Penha da Quixabeira e Kelvin Diniz
Produção Executiva: Leonardo Miranda e Ludmilla Dourado
Arte de Capa: Maiara do Carmo

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Ouça o Disco:

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