Lançamentos resenha

Sobre o EP que eu ouvi, escrevi sobre e ainda não compreendi tudo. Pombália de Guto Brant

O mergulho é inevitável. Nele encontramos os fantasmas do passado que cada vez mais estão atuais, entre tudo isso, Guto Brant doou-se e entregou até conceitos filosóficos em seu denso EP “Pombália”.
Foto divulgação por Júlia Maia.

Pombália” é o nome do novo trabalho do músico mineiro Guto Brant.

A melancolia da música, muito além de uma letra triste, tem a sonoridade triste, toda a construção triste. Guto Brant, se essa não era a sua intenção, cara, perdão, mas foi assim que bateu em mim haha. Uma das coisas mais interessante deste EP do artista mineiro é uma conexão com o passado, seja por vinhetas antigas de programas de rádio e até mesmo a sonoridade e a forma de cantar, sempre remetendo ao retrô, mas fazendo paralelo com a contemporaneidade.

Tem um quê de Caetano Veloso, outro quê de trilha sonora de filmes com a Dina Sfat na década de 70 e mais outro de Mutantes. É um trabalho fascinante. Se imagine andando de bicicleta na orla de uma praia, alguém está ali te filmando e depois vai colocar uma canção para finalizar o vídeo, pode muito bem ser qualquer uma de “Pombália”, mas a que mais combinaria com esse momento, com certeza, é “Sem Farol“, com sua sonoridade gostosa meio psicodélica e trazendo o caos brasileiro em sua letra e vinhetas.

As cinco canções giram em torno das incongruências da nação brasileira, denunciando o acirramento do caos social causado pela condução de políticas desastrosas e os atuais desafios dessa geração desamparada”, alfineta. “Por meio de uma perspectiva hauntológica, as canções pintam um Brasil que é atormentado pelos capítulos sombrios de sua história que não foram devidamente encerrados”, completa Guto Brant.

O trabalho foi inspirado por conceitos e falas dos filósofos Jacques Derrida e Vladimir Safatle. Derrida cunhou o termo “hauntologia”, que Guto citou acima, que resumidamente em poucas palavras é um conceito que se refere ao retorno ou persistência de elementos do passado, como na forma de um fantasma. No disco isso é bem presente principalmente nas vinhetas antigas, mas também está no conteúdo das letras. Já Vladimir Safatle foi a inspiração para a canção “Nu Ante A Vida”, que fala sobre a apatia da sociedade frente às grandes questões, o que resulta em um estado generalizado de abandono.

Uma vez, sentado no chão de um auditório lotado, ouvi Vladimir Safatle dizer que ‘nossos sonhos são maiores que a noite mais escura’. A frase, que me marcou, ilustra parte do sentido dessa canção, e do disco como um todo”, conta Guto, explicando que Safatle (recorrendo a Freud) apresenta a ideia de que a desproteção deriva uma força de emancipação capaz de nos abrir para novos vínculos.

Eu não costumo fazer resenhas sobre EP’s, pois geralmente gosto de ter mais material musical para trabalhar em cima, mas “Pombália” é tão rico, tão profundo, tão tocante que decidi escrever. Existe tanta coisa pra contar sobre esse disco e eu sentei pra escrever sem ao menos entender 50% de todo o rico conteúdo.

É isso, meio que uma resenha meio do caminho onde ainda falta muito o que compreender, mas deixo para você que está lendo isso a dica para mergulhar em “Pombália” de Guto Brant, com certeza a imersão valerá muito a pena. No final vou deixar um breve Faixa-a-Faixa sobre as canções para te ajudar no entendimento total da obra.

O Disco

Capa do EP. Foto por Júlia Maia. Arte por Letícia Naves.

Guto mora em Belo Horizonte e compôs as faixas, produziu e gravou sozinho o EP “Pombália” em seu apartamento no último ano, em total isolamento. O EP foi mixado por Lucas Luis, colaborador de longa data, e masterizado no estúdio Bunker Analog, por Anderson Guerra. “Pombália” é o segundo EP do artista, que lançou “Duplo”, em 2018.

O mergulho é inevitável. Nele encontramos os fantasmas do passado que cada vez mais estão atuais, entre tudo isso, Guto Brant doou-se e entregou até conceitos filosóficos em seu denso EP “Pombália”.

Faixa-a-Faixa

1 – “Tempo Seco / Temporal”, canção intimista que versa sobre Minas Gerais, e o quanto o extrativismo mineral se entremeou à cultura da terra de Guto, criando um povo desiludido.

2 – “Um Sopro” fala sobre o tempo, a sua inexorabilidade e a nossa insistência, como geração, em um modo de vida marcado pelo excesso do trabalho e do consumo, repetindo (e acirrando) uma lógica à qual as gerações anteriores se submeteram e que sabemos que não deu certo, mas ainda não fomos capazes de reinventar.

3 – Já “Sem Farol” é uma espécie de balada-paródia jovemguardista que retrata o Brasil através de uma lente caleidoscópica, sobrepondo imagens contrastantes que ilustram a nossa falta de orientação em meio a um mar de coisas caóticas.

4 – “Mês Um”, a faixa seguinte, vasculha a intimidade de um casal (ou dois), de suas matizes ao equilíbrio que provém da troca.

5 – E Guto Brant dá o seu recado final em “Nu Ante A Vida”, uma canção sobre a apatia da sociedade frente às grandes questões, o que resulta em um estado generalizado de abandono. Com arranjos do conterrâneo Rafael Macedo, pianista e compositor, a música foi inspirada por uma fala do filósofo Vladimir Safatle e cita a pandemia, o derramamento de petróleo no litoral e o desastre ambiental de Brumadinho, por exemplo.

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